A engenharia de produção tradicionalmente se apresenta muitas vezes como a definição de processos, organização de sistemas e fluxos otimizados para alcançar a eficiência máxima. Nosso método de trabalho é buscar estruturar processos, maximizando resultados e eliminando desperdícios, dentro de sistemas que ficam cada vez mais complexos. Mas essa visão revela apenas uma pequena parte da real lógica da engenharia. Por trás de toda ação e decisão, existe uma realidade mais profunda e que raramente é explorada de forma explícita: a realidade filosófica da engenharia de produção.
Essa realidade pode surgir, por exemplo, ao pensarmos no porquê da criação da ordem. A entropia, sendo a medida que indica o grau de aleatoriedade de um sistema, aponta que a probabilidade do caos é maior do que a probabilidade da harmonia. Você pode observar isso, por exemplo, ao chacoalhar uma caixinha de remédios: é muito mais provável que eles fiquem desorganizados do que organizados (separados por cor). Nessa lógica, a entropia também se aplica ao contexto da produção, como nas máquinas. Essa tendência à desordem é percebida na própria normalidade de as máquinas tenderem mais a fabricar produtos com alguma diferença, ainda que mínima, do que a produzir resultados perfeitamente iguais. Ela também se manifesta na inevitabilidade do desgaste, da variabilidade e da perda de eficiência ao longo do tempo. Agora que você sabe disso, faz sentido organizar e buscar otimização em um sistema sabendo que ele naturalmente tende à desordem?
E, para responder a essa pergunta, entramos na pura filosofia: o absurdismo. A filosofia absurda surge em um contexto de pós-Segunda Guerra Mundial, quando o mundo, após ver tal horror, não sabia se existia, de fato, um sentido para a vida. Refletindo sobre o absurdo da vida, filósofos como Søren Kierkegaard, Friedrich Nietzsche e, principalmente, Albert Camus desenvolveram o absurdismo. A corrente filosófica tem como base o conflito entre a necessidade humana de encontrar sentido e um universo que, em si, não oferece respostas claras. Camus cria, então, o conceito de revolta, no livro O Mito de Sísifo, que é a aceitação do absurdo, ainda que na sua ausência de sentido, e continuar seguindo mesmo assim. Para demonstrar isso, ele usa Sísifo, um ícone da mitologia grega conhecido por representar o esforço eterno e sem fim, pois foi condenado a empurrar uma pedra enorme ao topo de uma montanha, mas, sempre que chegava próximo, a pedra rolava de volta por toda a eternidade. Absurdo, não? Mas Camus diz que, ainda nesse castigo eterno, é possível imaginar Sísifo feliz, a partir do momento em que ele aceita sua punição como seu destino e, mais do que isso, toma consciência dela. Sua felicidade não estaria mais no fim da tarefa, mas sim no ato de persistir. Isso seria a revolta.
Aí você me pergunta: “mas cadê a resposta da pergunta?” Tá aqui.
Como vimos, não há sentido em buscar eficiência em um sistema que sempre tenderá ao “caos”, mas, ainda assim, seguimos persistindo em buscar eficiência e produtividade, mesmo sabendo disso. Ou seja, criamos a ordem porque a ordem é a nossa revolta em um universo que não nos garante sentido nem organização.
Além disso, outro conceito filosófico se adequa perfeitamente à engenharia de produção: o utilitarismo, desenvolvido principalmente por Jeremy Bentham e John Stuart Mill. Ele busca definir a necessidade de uma ação baseada na sua capacidade de gerar felicidade para o maior número de pessoas. Ou seja, no contexto da engenharia, ele atua como um orientador de decisões, visando o maior benefício possível para o maior número de pessoas.
Analisando isso, toda tomada de decisão deixa de ser apenas técnica e passa a ser também ética. Como na implementação de máquinas e sistemas que substituem a função humana, que leva a um dilema ético evidente. Ao automatizar processos, as empresas conseguem aumentar a produtividade, reduzir custos e minimizar erros, gerando, em teoria, um benefício maior para um número maior de pessoas — seja por meio de produtos mais baratos, maior escala de produção ou maior competitividade no mercado. Isso torna a substituição justificável, mas a análise não é tão simples como parece, pois trata-se também de desemprego, insegurança e perda de renda. Assim, a ação também afeta o ganho coletivo.
Então, ao buscar maior eficiência, o utilitarismo transforma pessoas, tempo e até sofrimento em variáveis do sistema produtivo. A produção deixa de ser apenas algo técnico e passa a funcionar como um cálculo, medindo quanto se ganha, quanto se perde e quem arca com esse custo.
Com base em tudo isso que foi apresentado, chegamos à conclusão de que a Engenharia de Produção deixa de ser apenas uma área voltada à eficiência e passa a ser, inevitavelmente, um campo de pura reflexão. Entre a busca pela ordem mesmo na consciência da constante tendência ao caos, a persistência diante do absurdo e as decisões orientadas pelo maior benefício coletivo, o engenheiro passa a atuar também como um filósofo, como um agente que constantemente está diante de escolhas carregadas de enormes significados.
Portanto, o ato de produzir não é apenas a organização e maximização de resultados, mas é também eleger os pensamentos que vão guiar nossas ações e quais consequências estamos dispostos a aceitar delas. Para finalizar, a Engenharia de Produção nunca vai poder ser resumida apenas à transformação de sistemas em mais produtivos. Ela se torna uma forma de responder ao caos, como na revolta, afirmar escolhas e construir sentido em um universo absurdo que não garante nada disso.